
Com a promessa de mais disposição para estudos e rotinas aceleradas, o consumo de bebidas energéticas cresce entre adolescentes, mas especialistas alertam para graves consequências físicas e mentais.
Nos últimos anos, o consumo de bebidas energéticas entre adolescentes e estudantes tem crescido de forma visível. É comum ver latas coloridas nas mochilas, nas mãos durante os intervalos e até nas mesas de estudo. Muitos jovens recorrem aos energéticos em busca de mais disposição para encarar provas, virar noites estudando ou simplesmente para acompanhar o ritmo acelerado do dia a dia. Mas o que parece uma solução rápida pode esconder riscos importantes.
Bebidas energéticas são ricas em cafeína, açúcar e outras substâncias estimulantes. O problema é que o organismo de adolescentes ainda está em desenvolvimento, e o consumo frequente desses produtos pode causar efeitos colaterais sérios: insônia, ansiedade, taquicardia, aumento da pressão arterial e, em casos mais graves, problemas cardíacos.

Para entender melhor os riscos, conversamos com o médico psiquiatra Renato Fernandes (rfernandespsiq@gmail.com) , graduado pelo HC/UFMG, com Residência Médica em psiquiatria pelo IPSEMG e que também é professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais FCMMG. Ele destaca que o consumo de energéticos por adolescentes é especialmente delicado:
“É super perigoso o uso de energético, principalmente para a população que tem algum problema cardíaco. Nos adolescentes aí no colégio e no cursinho, eu acredito que grande parte das pessoas não tenha um problema cardíaco ou, se tiver, por serem jovens, não vão saber que têm uma cardiopatia. Então, o uso de energético é super complicado para essa população, porque ele pode trazer problemas cardíacos, principalmente para uma população predisposta — o que, grande parte das vezes, nessa idade dos estudantes, ainda não vai saber que tem.”
Além dos riscos físicos, o médico chama atenção para os efeitos mentais e comportamentais:
“A pessoa não está respeitando os limites do corpo, e eu acho que o corpo fala. O consumo de energético específico para ficar acordado, produzir mais e tudo mais, não seria adequado. O corpo tem um limite de processamento. Os principais sintomas que pioram, se a gente for pensar na psiquiatria, são insônia e ansiedade. Acelera o coração, acelera tudo, acelera o pensamento — e é insônia.”
O sono, segundo o médico, é essencial para o aprendizado:
“A gente tem que dormir. Se a gente não dormir, a gente não vai processar aquilo que a gente aprendeu, a gente não vai guardar aquilo que a gente aprendeu. Então não adianta ter ficado acordado o tempo todo e ter estudado o mundo, se você vai ter uma qualidade de sono ruim e não vai processar aquilo muito bem.”
Para driblar o cansaço de forma saudável, ele reforça que não há fórmula mágica:
“Um clichê que eu acho que não vai ter outra coisa que não seja… atividade física. Para melhorar a disposição, melhorar a qualidade do sono… enfim, são outras medidas comportamentais melhores do que ingerir um estímulo externo.”
Também há um fator cultural envolvido. As embalagens chamativas, a propaganda focada na produtividade e a associação com esportes e juventude criam a ilusão de que essas bebidas são inofensivas. Mas nem sempre os jovens têm acesso a informações claras sobre os riscos. Muitas vezes, a decisão de consumir parte da desinformação ou da pressão social.
É papel da escola, da família e da sociedade discutir esse tema com seriedade. Precisamos abrir espaço para conversas francas, baseadas em dados e em experiências reais. Estimular alternativas saudáveis, como sono de qualidade, alimentação equilibrada e práticas regulares de exercício, é fundamental. Mais do que condenar, o caminho é informar.
O desafio está lançado: que tal trocar o energético por hábitos que tragam energia de verdade?
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