A Guerra pela sua atenção: como o Human Fracking afeta seus estudos
Entenda por que a dificuldade de concentração no vestibular não é falta de disciplina, mas resultado de uma economia que transforma seu foco em mercadoria.
O que as redes sociais estão fazendo com a sua capacidade de estudar?
Há uma cena que se repete em milhares de casas todos os dias. O estudante abre o livro, lê duas páginas, pega o celular para responder uma mensagem, volta ao texto, assiste a um vídeo curto, consulta uma rede social, lembra de procurar um resumo no YouTube e, quando percebe, passaram quarenta minutos. O livro continua praticamente na mesma página.
É comum atribuir essa dificuldade à falta de disciplina ou de força de vontade. A explicação, entretanto, pode ser mais complexa.
Nos últimos anos, pesquisadores passaram a demonstrar que a atenção deixou de ser apenas uma capacidade cognitiva. Ela se transformou em um ativo econômico. Cada minuto que passamos diante de uma tela representa receita para empresas cujo modelo de negócios depende justamente disso: manter nossos olhos conectados pelo maior tempo possível.
Para quem está se preparando para o vestibular, compreender esse mecanismo talvez seja tão importante quanto dominar um conteúdo de Literatura ou resolver uma questão de Matemática.
Quando a atenção se transforma em mercadoria

O ativista Peter Schmidt, integrante da Strother School of Radical Attention, tornou-se uma das principais vozes na divulgação do conceito de human fracking.
A metáfora faz referência ao fraturamento hidráulico utilizado na extração de petróleo. Assim como esse processo força o solo a liberar recursos naturais, as grandes plataformas digitais utilizam algoritmos, notificações e recomendações para capturar e prolongar nossa atenção. O resultado é uma sucessão de estímulos que fragmenta o foco e transforma o tempo de permanência nas plataformas em lucro.
Em seus artigos publicados no Le Monde Diplomatique Brasil, Schmidt afirma que o problema não está nos celulares nem nas redes sociais em si. O verdadeiro desafio é o modelo econômico que recompensa empresas capazes de disputar cada segundo da nossa atenção.
Essa disputa acontece silenciosamente. Enquanto acreditamos estar escolhendo o próximo vídeo ou a próxima postagem, algoritmos competem para decidir onde permaneceremos olhando pelos próximos minutos.
O vestibular cobra exatamente aquilo que as redes sociais enfraquecem
Uma prova de vestibular exige leitura prolongada, interpretação de textos, raciocínio lógico, memória e capacidade de concentração durante várias horas.

Todas essas competências dependem de uma atenção relativamente estável.
Pesquisas em psicologia cognitiva mostram que a alternância constante entre mensagens, vídeos, aplicativos e redes sociais reduz a atenção sustentada, prejudica a memória de trabalho e aumenta o esforço necessário para retomar uma tarefa interrompida. O cérebro passa a esperar novidades o tempo todo e encontra dificuldade para permanecer diante de atividades que exigem maior elaboração.
Não é por acaso que muitos estudantes terminam um dia inteiro de estudos com a sensação de terem trabalhado bastante, mas aprendido pouco. O problema nem sempre está no conteúdo. Muitas vezes, está na incapacidade de permanecer tempo suficiente diante dele.
Como recuperar a capacidade de concentração
A boa notícia é que a atenção também pode ser treinada.
Peter Schmidt não propõe abandonar a tecnologia nem transformar o celular em inimigo. Sua proposta é recuperar o controle sobre aquilo que merece nossa atenção e criar momentos em que ela deixe de ser explorada comercialmente.
Algumas estratégias podem ajudar quem está se preparando para o vestibular.
Volte a escrever à mão
Estudos em neurociência mostram que escrever à mão ativa simultaneamente regiões cerebrais ligadas ao movimento, à percepção visual e à memória. O gesto de resumir um capítulo, elaborar um esquema ou construir um mapa mental exige que o cérebro reorganize as informações, favorecendo uma aprendizagem mais profunda.
Isso não significa abandonar os recursos digitais. Significa devolver ao papel um lugar importante no processo de estudar.
Crie santuários da atenção
Uma das ideias mais conhecidas de Peter Schmidt é a criação dos chamados “santuários da atenção”.
A proposta consiste em estabelecer ambientes e horários nos quais a concentração seja protegida das interrupções digitais. Pode ser uma mesa de estudos, uma biblioteca ou até mesmo um quarto durante duas horas por dia. O importante é que celulares, notificações e redes sociais deixem de disputar espaço com os livros.
Ao recuperar períodos contínuos de concentração, o estudante volta a experimentar aquilo que o ambiente digital tornou raro: pensar sem interrupções.
Estabeleça horários sem conexão
Nem toda atividade precisa acontecer diante de uma tela.
Ler um livro impresso, resolver exercícios em folhas de papel, revisar conteúdos utilizando caderno e caneta ou simplesmente caminhar sem o celular nas mãos são práticas que oferecem ao cérebro um intervalo da avalanche de estímulos digitais.
Esses momentos funcionam como um descanso para os mecanismos de atenção e favorecem a consolidação da aprendizagem.
Treine o foco como quem treina um músculo
Poucas pessoas conseguem permanecer três horas completamente concentradas de um dia para o outro.
Assim como acontece na atividade física, a concentração melhora com treinamento. Sessões curtas de estudo profundo, realizadas diariamente e sem interrupções, tendem a aumentar gradualmente a capacidade de manter o foco por períodos mais longos.
Mais importante do que estudar durante muitas horas é estudar com atenção plena.
Estudar também é recuperar o controle da própria atenção
O conceito de human fracking nos convida a olhar para o vestibular por outro ângulo. Em vez de acreditar que a dificuldade para estudar decorre apenas da falta de disciplina, vale reconhecer que existe uma disputa permanente pela nossa atenção.
Foi a partir das reflexões de Peter Schmidt que o blog do Determinante propôs esta discussão. Se a economia digital transforma a atenção em mercadoria, estudar passa a ser um ato de resistência. Cada hora dedicada a uma leitura sem interrupções, cada resumo escrito à mão e cada período de estudo longe das notificações representam uma escolha consciente de preservar a capacidade de pensar.
Em um vestibular, o conhecimento continua sendo indispensável. Mas, antes dele, existe uma habilidade que determina todas as outras: a capacidade de concentrar-se. Proteger a atenção é, portanto, uma das formas mais inteligentes de investir no próprio aprendizado.
Referências
SCHMIDT, Peter. “Para resistir aos abusos das Big Techs, precisamos de santuários da atenção.” Le Monde Diplomatique Brasil. Disponível em: https://diplomatique.org.br/para-resistir-aos-abusos-das-big-techs-precisamos-de-santuarios-da-atencao/
SCHMIDT, Peter. “Turning the Tide on Human Fracking.” The Daily Princetonian, 2024. Disponível em: https://www.dailyprincetonian.com/article/2024/09/princeton-opinion-opguest-turning-tide-human-fracking-attention-economy-enrichment
Dicas Extras: canal do YouTube Determinante
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