Adolescência (Netflix): o abismo entre gerações que todos deveriam ver e como ela cai no Enem e vestibulares

Saiba mais sobre a minissérie que expõe as fragilidades da sociedade contemporânea e a relação com as disciplinas do Enem e vestibulares

Com direção precisa e temas urgentes, minissérie britânica retrata a formação da violência em adolescentes de classe média e questiona o papel da família, da escola e da internet no século XXI

A minissérie Adolescência, produção britânica da Netflix lançada em março de 2025, tem apenas quatro episódios — mas o impacto que ela causa é duradouro. Dirigida por Philip Barantini e criada por Jack Thorne e Stephen Graham, a série apresenta uma história tensa e realista, com forte apelo emocional e grande valor educativo. O protagonista é Jamie Miller, um adolescente de 13 anos acusado de assassinar uma colega. A partir daí, o roteiro conduz o espectador a uma investigação sobre o que pode levar um jovem comum a cometer um ato tão extremo.

Mas o que torna Adolescência ainda mais poderosa é sua forma. Todos os episódios são filmados em planos-sequência — técnica que elimina cortes aparentes e exige uma atuação contínua e intensa. Esse recurso aproxima a série do teatro, colocando o espectador dentro da cena, como se estivesse acompanhando os acontecimentos em tempo real. Os atores, por sua vez, entregam performances de alto nível, sem espaço para erros ou artificialidades. É uma experiência técnica rara no audiovisual contemporâneo, que valoriza o tempo, o corpo e o olhar.

Uma família amorosa — e o desconcerto que ela causa

O que mais desconcerta em Adolescência é que Jamie não vem de um lar desestruturado. Pelo contrário: a série mostra uma família presente, atenta, amorosa. A mãe, o pai e o irmão têm diálogos reais e vínculos afetivos consistentes. Isso desmonta a suposição de que a violência juvenil seria consequência direta de uma família disfuncional. A série propõe uma outra hipótese: talvez a violência se infiltre de formas mais complexas e sutis — e a internet pode ser uma dessas vias.

Redes sociais, cultura incel e masculinidades frágeis

Ao explorar a rotina digital de Jamie, a série revela como comunidades online, aparentemente inofensivas, podem influenciar o comportamento de adolescentes. Termos como “misoginia”, “intolerância” e “incel” (abreviação de “involuntariamente celibatário”) são discutidos com profundidade, mas sem didatismo. A produção mostra como certos discursos de ódio são naturalizados nos fóruns, grupos e vídeos assistidos por jovens — muitas vezes sem que os adultos ao redor sequer percebam. As redes sociais não apenas informam, mas moldam comportamentos, valores e formas de se relacionar.

O abismo entre pais e filhos

Talvez o aspecto mais perturbador da série esteja na relação entre gerações. Adolescência escancara o quanto os pais estão distantes do universo simbólico dos filhos. A linguagem, os códigos, as formas de socialização dos adolescentes nascidos no século XXI são completamente diferentes das vividas por seus pais. A internet não é apenas um meio de comunicação: é o próprio espaço de existência desses jovens. Por isso, o diálogo entre as gerações torna-se tão difícil — e, às vezes, quase inviável.

Escola, empatia e silêncio

A escola aparece como um espaço onde o contato humano está fragilizado. Educadores tentam, mas esbarram em barreiras emocionais, institucionais e tecnológicas. A empatia, o respeito e o vínculo parecem ausentes — não por desinteresse, mas por uma série de ruídos e interferências. O celular, o computador, os fones de ouvido: tudo separa. A série propõe que os conflitos vividos pelos adolescentes não são apenas de ordem individual ou psicológica, mas profundamente culturais e sociais.

Repertório contemporâneo para vestibulares

Além de tudo, Adolescência pode aparecer em provas de vestibulares ou no Enem. A abordagem de temas como redes sociais, formação da identidade, cultura digital, violência simbólica e relações familiares faz da série um repertório sociocultural valioso. É possível que, em breve, produções como essa sejam indicadas até como leitura obrigatória em vestibulares mais atentos às questões contemporâneas.

Boa série. Boa conversa. Boa reflexão.

A nossa sugestão é que você não deixe de assistir — e, se possível, compartilhe esse momento com quem mais importa: sua família.

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