
Uma data para reflexão e ação contra a violência persistente nos ambientes de ensino, do bullying tradicional ao impacto do cyberbullying
Instituído pela Lei 13.277/2016, o Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola é celebrado em 7 de abril. A data remete ao ataque ocorrido na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, em 2011. O propósito da lei, no entanto, vai além da memória. Ela propõe uma reflexão contínua e exige a construção de estratégias coletivas contra formas recorrentes de violência nas instituições de ensino.
O bullying não deve ser confundido com conflitos pontuais ou brincadeiras entre colegas. Trata-se de um comportamento sistemático, reiterado e intencional que visa à intimidação, humilhação e exclusão de um indivíduo. Embora possa ocorrer em diferentes idades e contextos, o ambiente escolar é um dos cenários mais comuns — e mais negligentes — no enfrentamento do problema.
Segundo o IBGE (PeNSE, 2019), cerca de 23% dos adolescentes brasileiros entre 13 e 17 anos relataram ter sofrido bullying. Os principais motivos alegados foram aparência física, cor da pele, orientação sexual, religião e origem social. Esses dados indicam que o bullying não se dissocia de práticas discriminatórias estruturais. Ele reproduz, em escala reduzida, desigualdades que a sociedade em geral ainda normaliza.
Além disso, o fenômeno não está mais restrito ao espaço físico da escola. Com o uso intensivo das redes sociais, o cyberbullying amplia o alcance das agressões e prolonga seu impacto. A violência, antes limitada ao tempo escolar, agora acompanha os estudantes fora do ambiente educacional, muitas vezes sem qualquer possibilidade de controle ou mediação por parte de adultos.
Embora frequentemente associado à educação básica, o bullying também se manifesta em espaços de ensino médio avançado, como os cursinhos pré-vestibulares. Nesses locais, a alta competitividade e a pressão por desempenho criam um ambiente propício à exclusão e à ridicularização. Alunos com dificuldades de aprendizado, oriundos de escolas públicas ou pertencentes a grupos minorizados enfrentam piadas, comentários depreciativos e isolamento social.
A diferença em relação ao ambiente escolar tradicional está na naturalização da ideia de maturidade. Ao tratar estudantes como adultos plenos, muitos cursinhos desconsideram a importância do acolhimento emocional. Essa postura dificulta o reconhecimento do sofrimento e retarda qualquer tentativa de intervenção.
O combate ao bullying exige ações coordenadas em três níveis: individual, institucional e coletivo.
Se você sofre bullying:
– Fale com alguém de confiança: professor, coordenador ou familiar.
– Não internalize a violência. O problema está na atitude do outro.
– Busque apoio psicológico. Muitas redes públicas oferecem suporte por meio de orientadores educacionais, CAPS ou serviços de saúde da família.
Se você presencia:
– Não silencie nem relativize. Rir ou se omitir contribui com o agressor.
– Apoie a vítima. Um gesto de acolhimento pode interromper o ciclo da exclusão.
– Acione os canais institucionais. Toda escola deve ter protocolos de escuta e intervenção.
Se você comete:
– Interrompa a conduta. Refletir sobre o motivo das agressões é parte do amadurecimento.
– Entenda os efeitos que seu comportamento provoca nos outros.
– Procure ajuda se perceber dificuldade em controlar impulsos ou frustrações.
O avanço das redes sociais ampliou significativamente o alcance das violências simbólicas. O cyberbullying tornou-se uma extensão contínua das agressões presenciais, com características próprias: anonimato, viralização e permanência dos conteúdos ofensivos. A vitimização, nesse ambiente, tende a ser mais duradoura e invasiva, uma vez que o espaço digital elimina as fronteiras entre escola, casa e vida íntima. Além disso, a cultura da exposição — reforçada por algoritmos que premiam o engajamento — frequentemente transforma o sofrimento em espetáculo, dificultando a reação institucional e individual.
A série Adolescência (Netflix, 2025) ilustra com precisão essa dinâmica. Ao retratar a vida de jovens imersos em redes sociais e pressionados por performances virtuais, a produção evidencia como o cyberbullying se articula com inseguranças afetivas, racismo e questões de pertencimento. Em diversos episódios, insultos online, vazamento de fotos e comentários públicos servem como mecanismos de controle, exclusão e violência psicológica. A narrativa revela que a agressão digital não é apenas uma extensão do bullying tradicional, mas um fenômeno com linguagem, intensidade e impactos próprios — e que exige respostas específicas, tanto no campo educacional quanto nas políticas públicas voltadas à juventude.
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