Quem Ama, Estuda Junto

Crônica para o Dia dos Namorados

Era 12 de junho. Na mesa da sala, entre cadernos abertos e marcadores de texto espalhados como bandeirolas de uma festa improvisada, ela estudava. Ele chegou com dois copos de café, colocou um ao lado do livro dela e se sentou ao outro lado da mesa. Sem fazer barulho. Sem reclamar. Sem pedir atenção.

Às vezes o amor se parece exatamente com isso.

Vivemos numa cultura que romantiza o amor como interrupção — o beijo que apaga o pensamento, a chegada que dissolve os planos, a mensagem que faz o coração bater mais forte do que qualquer raciocínio. E há beleza nisso, não vou negar. Mas há outro amor, menos fotografado e igualmente real: o que respeita o ritmo do outro, o que aprende a ser silêncio quando a outra pessoa precisa de concentração.

Marie Curie, a mulher que ganhou dois prêmios Nobel em áreas diferentes, física e química, nunca teria chegado tão longe sem Pierre. Não porque ele pensou por ela, mas porque pensou com ela. Dividiam o laboratório como outros casais dividem a cozinha: com discussão, com parceria, com a honestidade de quem quer que o outro chegue aonde é capaz de chegar. Quando ela morreu, anos depois de perder Pierre num acidente, continuou o trabalho que tinham começado juntos. Amor que deixa legado não é o que prende — é o que impulsiona.

Casais famosos.

Carl Sagan costumava dizer que o cosmos estava dentro de nós. Ann Druyan, sua companheira, foi quem ajudou a transformar essa ideia em série de televisão, em livro, em linguagem acessível a milhões de pessoas. O amor deles era feito da mesma matéria de que é feita a boa ciência: curiosidade compartilhada, admiração mútua, e a convicção de que o mundo fica melhor quando entendemos mais dele.

Charles Darwin hesitou anos antes de publicar A Origem das Espécies. Tinha medo da rejeição, do escândalo, da incompreensão. Foi Emma, sua esposa, quem o encorajou a publicar, mesmo sem concordar com tudo que ele escrevia. Amar não é necessariamente concordar. Às vezes é dizer: vai em frente, eu estou aqui.

No modernismo brasileiro, Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade fizeram da relação um laboratório estético. Ela pintava enquanto ele escrevia. Debatiam, discordavam, se inspiravam. O Abaporu: aquela figura enorme com o pé fincado na terra brasileira. nasceu num aniversário dele, presenteado por ela. O amor como presente intelectual.

Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre inventaram um modelo de relação que escandalizou o século XX: amor sem posse, liberdade sem abandono. Podemos discutir os limites desse experimento, e eles são muitos. Mas o que não se discute é que ela nunca deixou de escrever, de pensar, de publicar. E ele nunca tentou impedi-la. O Segundo Sexo, um dos livros mais importantes do século passado, foi escrito por uma mulher que se sentiu livre para pensar. Isso tem preço. Tem nome.

Voltemos àquela mesa do dia dos namorados. Ele trouxe café. Ela agradeceu sem tirar os olhos do texto. Horas depois, quando ela fechou o caderno, ele perguntou: entendeu? E ela explicou. E ele ouviu com o mesmo interesse de quem aprende algo novo.

Não há nada mais bonito do que isso.

Quem ama não compete com o sonho do outro. Não diminui a ambição, não ironiza o esforço, não chama de exagero a dedicação. Quem ama sabe que o crescimento de uma pessoa não rouba espaço, mas amplia o mundo dos dois.

O amor que dura não é o que brilha só nas datas comemorativas. É o que aparece nas madrugadas de estudo, nos resumos revisados juntos, no silêncio que sabe a hora de ser silêncio. É o amor que diz “você é capaz, eu acredito em você”.

E no Dia dos Namorados, mais do que flores e chocolates, talvez o maior presente que se possa dar a alguém seja este: acreditar, de verdade, que essa pessoa tem algo importante a conquistar, e decidir fazer parte dessa caminhada.

— 12 de junho

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