
De passatempo discreto a febre no pátio: um mergulho na história e nos ensinamentos do jogo milenar que virou atração principal na escola, provando que o clássico nunca sai de moda.
Começou discretamente, como costumam começar as boas histórias. Um tabuleiro improvisado, dois colegas curiosos, peças que se mexiam devagar, entre um gole de água e o soar do sinal. Em pouco tempo, o que era passatempo virou atração principal: hoje, os intervalos do Curso e Colégio Determinante são marcados por disputas acirradas de xadrez, cercadas por rodas de estudantes atentos a cada jogada. O mais interessante é que o sucesso da prática não pode ser atribuído apenas à ausência dos celulares, cujo uso está restrito durante o horário escolar. Mesmo com outras opções de lazer, o tabuleiro parece ter conquistado um espaço especial na rotina de muitos alunos, e até de alguns professores.

É curioso que, num mundo acelerado como o nosso, um jogo milenar, silencioso e paciente como o xadrez tenha voltado à cena com tamanha força. Mas talvez esse retorno tenha mesmo algo a ensinar. Afinal, o xadrez é, possivelmente, o jogo mais antigo que se joga com o cérebro. Suas origens remontam ao subcontinente indiano, por volta dos séculos VI ou VII, no jogo chamado chaturanga, cujas peças representavam divisões militares. De lá, o jogo passou para a Pérsia, onde ganhou o nome shatranj, e foi se moldando até chegar à Europa medieval pelas rotas de conquista e comércio. O termo “xeque-mate”, por exemplo, vem do persa shāh-māt, que significa literalmente “o rei está morto”.
Ao longo dos séculos, o jogo se sofisticou, ganhou regras mais dinâmicas, como o roque e o avanço duplo do peão, e se consolidou como esporte de raciocínio no século XIX, com campeonatos e federações. Em 1886, aconteceu o primeiro campeonato mundial oficial. Já no século XX, as partidas se tornaram também batalhas digitais: foi em 1997 que o supercomputador Deep Blue derrotou o então campeão Garry Kasparov, num confronto que marcou uma nova era para o jogo, e um sinal de que até o raciocínio humano estava sendo desafiado pela máquina.
Mas, apesar dos aplicativos de celular e das plataformas online, o fascínio do xadrez ao vivo, olho no olho, continua insubstituível. É ali, no pátio do colégio, que se sente a tensão de cada jogada, a frustração do xeque-mate inesperado, o orgulho silencioso de uma boa sequência de lances. É nesse espaço, também, que alunos se aproximam, se ensinam, se desafiam e criam vínculos que vão além do jogo.
Um exemplo de como o xadrez inspira também fora do tabuleiro é o poema “Xadrez Profundo”, do norte-americano Lawrence Ferlinghetti. Traduzido especialmente para esta reportagem pelo professor Flávio, o texto compara a vida a um campeonato de xadrez, onde o tempo corre — e hesitar tem custo. “O poema é muito direto ao mostrar que, se você hesita demais, acaba tendo menos tempo para o restante da sua vida. Em outras palavras, o xadrez ensina a decidir. Ensina que não decidir também é uma decisão, e muitas vezes é a pior de todas”, comentou o professor, em entrevista ao blog.
Xadrez Profundo (1958)
Lawrence Ferlinghetti
A vida, em si, como um campeonato de xadrez:
jogadores sombrios se enfrentam
num tabuleiro quadriculado,
onde há apenas
um tempo limitado
para completar os lances.
E o relógio corre
o tempo todo.
Se você demora demais
num só movimento,
esse tempo será descontado
do resto da sua vida.
A redescoberta do xadrez no DET dialoga, inclusive, com tendências culturais mais amplas. Em 2020, a série O Gambito da Rainha se tornou uma das mais assistidas da história da Netflix, com mais de 60 milhões de lares alcançados apenas no primeiro mês. A história da jovem Beth Harmon, que ascende no competitivo mundo do xadrez nos anos 1960, despertou interesse mundial pelo jogo, inclusive entre adolescentes. Vendas de tabuleiros aumentaram exponencialmente após o lançamento da série, e torneios juvenis ganharam novos rostos e nomes.

Pensando nesse movimento espontâneo e saudável que tem crescido entre nós, o blog do Determinante propõe que pensemos em ir além: que tal organizar torneios internos entre as turmas? Seria uma forma de tornar ainda mais rica essa vivência coletiva que já se iniciou de forma tão natural. Além de fortalecer o raciocínio lógico e a capacidade de tomada de decisão, os campeonatos podem ser uma ótima oportunidade de convivência criativa entre alunos de diferentes séries.
E para encerrar, deixamos um desafio: uma questão sobre xadrez retirada da prova do Enem 2009 está afixada ao lado dos tabuleiros. O gabarito pode ser consultado com o professor Renato. Quem sabe você não é o próximo campeão dos intervalos? Boa sorte, boas jogadas — e que vença o mais atento.
ENEM 2009 – O xadrez é jogado por duas pessoas. Um jogador joga com as peças brancas, o outro, com as pretas. Neste jogo, vamos utilizar somente a Torre, uma das peças do xadrez. Ela pode mover-se para qualquer casa ao longo da coluna ou linha que ocupa, para frente ou para trás, conforme indicado na figura a seguir:
O jogo consiste em chegar a um determinado ponto sem passar por cima dos pontos pretos já indicados.

O jogo consiste em chegar a um determinado ponto sem passar por cima dos pontos pretos já indicados.

Respeitando-se o movimento da pega Torre e as suas regras de movimentação no jogo, qual é o menor numero de movimentos possíveis e necessários para que a Torre chegue a casa C1?
a) 2
b) 3
c) 4
d) 5
e) 7
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