Leitura, escuta e olhar: as obras indicadas para o Seriado da UFMG

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O Processo Seletivo Seriado da UFMG começa a se transformar. A partir desta edição, a prova da primeira etapa passou a incluir três obras culturais obrigatórias, cada uma de uma linguagem diferente: literatura, música e artes visuais. É uma mudança que valoriza não apenas o conteúdo, mas também a sensibilidade dos estudantes. Ler, escutar e observar se tornam, agora, partes fundamentais do percurso de quem deseja entrar em uma das universidades mais importantes do país.

A lista de obras escolhidas surpreende pela diversidade. Foi selecionado um romance brasileiro do século XIX, uma música contemporânea do rap nacional e uma obra visual que mistura arte e crítica social. Essas escolhas ajudam a mostrar que a cultura está em toda parte e que vale a pena estar atento ao que os artistas, de ontem e de hoje, têm a nos dizer.

A primeira obra da lista é o romance Memórias de Martha, de Júlia Lopes de Almeida. Publicado originalmente em capítulos, como folhetim de jornal, em 1888, o livro acompanha a vida de Martha, uma mulher pobre, órfã e trabalhadora, que vive em um cortiço do Rio de Janeiro. Ela decide escrever suas memórias e, ao fazer isso, mostra ao leitor um pedaço da vida das pessoas comuns, daquelas que quase nunca aparecem como protagonistas nos livros da época.

O estilo do romance é marcado por características do realismo, com descrições detalhadas da sociedade, e também do naturalismo, principalmente quando trata da influência do ambiente sobre os personagens. A vida difícil no cortiço, as situações de violência, miséria e sofrimento, tudo isso é mostrado de forma direta e sem idealizações. Ao dar voz a uma personagem que vive à margem da sociedade, a autora convida o leitor a enxergar o mundo por outro ponto de vista, mais humano e mais verdadeiro.

Pão e Circo, obra do artista mineiro Paulo Nazareth e a música Principia do artista Emicida

A segunda obra indicada é a música Principia, do rapper Emicida, faixa de abertura do álbum AmarElo, lançado em 2019. A canção mistura o rap com cantos religiosos, vozes femininas maduras, a participação da cantora Fabiana Cozza e do pastor Henrique Vieira. O resultado é uma música que soa como uma oração coletiva, reunindo diferentes tradições religiosas para transmitir uma mensagem de amor, acolhimento e respeito à diversidade.

A letra de Principia é rica em referências ao candomblé, ao cristianismo, ao budismo e até à filosofia africana do Ubuntu. Em vez de apontar o dedo para o outro, Emicida propõe que a convivência entre diferentes seja construída pelo afeto e pelo reconhecimento de uma humanidade comum. O refrão, cantado em coro, afirma: “Tudo, tudo, tudo que nós tem é nós”. Em tempos de tanta polarização e intolerância, essa ideia soa como um convite à empatia e à reconciliação. Emicida mostra que resistir também pode ser um ato de ternura, e que o rap pode ser um lugar de encontro, não apenas de confronto.

Por fim, a terceira obra selecionada é Pão e Circo, do artista mineiro Paulo Nazareth, formada por três fotografias tiradas em 2012. Nelas, o próprio artista aparece com pedaços de pão cobrindo os olhos, os ouvidos e a boca. A imagem lembra os “três macacos sábios”, que não veem, não ouvem e não falam. Mas aqui, o gesto ganha outro sentido: o pão, símbolo da comida básica, é usado como mordaça. O artista sugere que a sociedade pode ser mantida na ignorância quando lhe é dado apenas o mínimo necessário para sobreviver.

O título da obra vem da expressão “pão e circo”, usada no Império Romano para descrever a tática de controlar o povo com comida e diversão. Paulo Nazareth usa essa ideia para criticar a realidade brasileira contemporânea. A obra foi feita num momento em que o país se preparava para grandes eventos como a Copa do Mundo, enquanto enfrentava graves problemas sociais. O artista pergunta, com imagens silenciosas e fortes: será que ainda hoje aceitamos o pão e o entretenimento em troca do nosso direito de ver, ouvir e falar?

Ao reunir essas três obras tão diferentes, a primeira etapa do processo seriado da UFMG nos convida a olhar o mundo com mais atenção, a escutar com mais cuidado e a pensar com mais profundidade. Literatura, música e arte visual se unem para estimular uma formação crítica e sensível. Quem lê Memórias de Martha, ouve Principia e observa Pão e Circo não está apenas se preparando para uma prova. Está aprendendo a ver melhor o que acontece à sua volta — e a não aceitar passivamente as vendas, os silêncios e os ruídos impostos pelo mundo.

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